1/7/06

É tarde, teu grito
já não chega aos meus ouvidos
que ensurdeceram de dor
É tarde, a lágrima
já não cai do olhar vazio
a última já se foi
É tarde, o coração
endureceu e morreu
já não se comove com o lamento
já não abriga a ternura
É tarde, o amor
voou de meu peito
como um pássaro ferido
que busca um refúgio
pra morrer em paz
É tarde, a noite
caiu e a aurora estertora, moribunda
e não virá mais
É tarde, a alma fria
já não comporta tanta dor
é agora um campo seco
onde mais nada floresce
onde só existe o amargo
o negro e o triste
Eu fui embora
não adianta me chamar
é tarde
(escrito por Zailda Mendes)

Nunca mais quero dizer
"eu te amo"
nunca mais quero entregar
o coração
pra ser esquartejado, enxovalhado
recolho os pedaços
sinto a dor funda
trespassando a carne
olho o horizonte
onde o nada se apresenta
enorme, colossal
sigo a estrada
que vai dar em nada
que segue pra lugar nenhum
onde brilha o sol sem cor
sem calor
esqueço as canções enquanto sigo
os sonhos vão caindo de meu peito
piso em esperanças vãs
como margaridas
desfalecidas pelo caminho
abandono o brilho do olhar
a tristeza me sobrevoa
não olho pra trás
o coração se transforma aos poucos
em pedra, em gelo
em espinho, em punhal
e repito enquanto morro aos poucos
"nunca mais, nunca mais"
(escrito por Zailda Mendes)

Triste, o ronco triste
do meu peito negro
minha alma moribunda
céu sem estrelas
de dentro um suspiro
último suspiro
caem as trevas
não se vê mais nada
desce o pano
encerra-se o tempo
param os ponteiros
o sol se esconde
aqui dentro no meu peito
não se ouve um ruído
é deserto
é vazio
sombrio
(escrito por Zailda Mendes)