1/7/06
Borboleta
Borboleta rubra
no céu de outono
detém seu voar
me leva em tuas asas
pra longe, bem longe
me leva pro mar
nas águas salgadas
flutuar, afundar
nascer, renascer
nas águas morrer
desaparecer
(escrito por Zailda Mendes)
Borboleta rubra
no céu de outono
detém seu voar
me leva em tuas asas
pra longe, bem longe
me leva pro mar
nas águas salgadas
flutuar, afundar
nascer, renascer
nas águas morrer
desaparecer
(escrito por Zailda Mendes)
A gargalhada louca
escorre da boca
o cérebro desfalece
adormece
as imagens se sobrepõem
em vertiginosa viagem
de cores e dores
insuportáveis
medonhas, desumanas
monstros brancos que aos poucos
invadem todos os lugares
e mente já não suporta
e se desmancha em luzes
e a gargalhada rasga a noite
entra pelas frestas das janelas
a loucura irrompe, indomável
e assim fenece, adormece
no peito do louco
o último fio de lucidez
(escrito por Zailda Mendes)
A vida continua
que importa o vazio
que importa o nada
que importa o desamor
que importa a dor
que importa o fim dos sonhos
o fim do amor
o fim da alegria
o fim da quimera
adeus à felicidade
adeus à vida
adeus à música
o importante é seguir
sem saber pra onde
seguir em frente
seguir, seguir enfim
até tombar de repente
parar para sempre
abandonar o corpo
voar pra eternidade
e a vida continua
(escrito por Zailda Mendes)
As garras cravam o coração
que se debate, em vão
que chia, que agoniza
e lentamente se contrai
em estertor de morte
e convulsivamente tenta guardar
em seu interior sangrento
restos do amor estraçalhado
pedaços de sonhos moribundos
mas o sangue escorre
e ele se abre
como uma gaiola
deixando voar para sempre
tudo que foi um dia
escorrendo pelos vãos dos dedos
pelo torpor das mãos
que se abrem para libertar
o último sopro
e então só fica a dor
(escrito por Zailda Mendes)
É tarde, teu grito
já não chega aos meus ouvidos
que ensurdeceram de dor
É tarde, a lágrima
já não cai do olhar vazio
a última já se foi
É tarde, o coração
endureceu e morreu
já não se comove com o lamento
já não abriga a ternura
É tarde, o amor
voou de meu peito
como um pássaro ferido
que busca um refúgio
pra morrer em paz
É tarde, a noite
caiu e a aurora estertora, moribunda
e não virá mais
É tarde, a alma fria
já não comporta tanta dor
é agora um campo seco
onde mais nada floresce
onde só existe o amargo
o negro e o triste
Eu fui embora
não adianta me chamar
é tarde
(escrito por Zailda Mendes)
Nunca mais quero dizer
"eu te amo"
nunca mais quero entregar
o coração
pra ser esquartejado, enxovalhado
recolho os pedaços
sinto a dor funda
trespassando a carne
olho o horizonte
onde o nada se apresenta
enorme, colossal
sigo a estrada
que vai dar em nada
que segue pra lugar nenhum
onde brilha o sol sem cor
sem calor
esqueço as canções enquanto sigo
os sonhos vão caindo de meu peito
piso em esperanças vãs
como margaridas
desfalecidas pelo caminho
abandono o brilho do olhar
a tristeza me sobrevoa
não olho pra trás
o coração se transforma aos poucos
em pedra, em gelo
em espinho, em punhal
e repito enquanto morro aos poucos
"nunca mais, nunca mais"
(escrito por Zailda Mendes)
Triste, o ronco triste
do meu peito negro
minha alma moribunda
céu sem estrelas
de dentro um suspiro
último suspiro
caem as trevas
não se vê mais nada
desce o pano
encerra-se o tempo
param os ponteiros
o sol se esconde
aqui dentro no meu peito
não se ouve um ruído
é deserto
é vazio
sombrio
(escrito por Zailda Mendes)