16/6/06

Engole o soluço negro que te arrepia
e com tenazes garras te dilacera
o peito, em indizível agonia
Beija a serpente que te habita e espera
Aguarda o raio que desce, lancinante
e há de partir tua alma ao meio
teu vulto, uma chaga transbordante
de fel, retorna de onde veio.
Volta vencida, besta repugnante
ao seio que te acolhe, inferno delirante
em negros abismos de seres colossais
Arrasta, enfim, tua alma errante
a dor flutua, contorce teu semblante
e te sugam as vísceras os anjos infenais.
(escrito por Zailda Mendes)

Cai a máscara, desce o pano
enfim mostras a face hedionda
jazes entre cinzas, fantoche humano
nesta tua frágil e inútil ronda
Apaga o passado que te trai
e arranca da vida o que mereces
enquanto meu peito em sangue esvai
teu castigo supremo enfim, padeces
Vai, alma de fugidio segredo
sepultar culpa, aplacar teu medo
embeber teu sonho em lágrima fria
Nas tuas mãos fui o teu brinquedo
mas teu coração, inescalável rochedo,
em mil chagas há de arder um dia.
(escrito por Zailda Mendes)

Perdoa, alma, perdoa
a serpente vil que te devora
a lágrima que te magoa
em prece inútil que te implora
Perdoa a mão que te golpeia
e te sangra o peito em agonia
perdoa porque quem semeia
semente podre colherá um dia
Perdoa quem ri de ti, maldito
enlouquece mas cala o grito
adormece o amargor e espera
Saberão os anjos do infinito
quanto te custa o gesto bendito
de perdoar dilacerada quimera
(escrito por Zailda Mendes)

Sonhei que a morte chegava
num galope dourado
de anjos negros
e seu hálito me alcançava
num beijo sereno, gelado
esperado e suspirado
e abria meu peito
e dele arrancava
com mãos de serpente
a dor reluzente
a chaga viva que lateja
e levava consigo
entre véus de mortalha
ainda pulsando
gelado, quebrado
meu triste coração
(escrito por Zailda Mendes)

Outra noite vem com meu algoz
nessa luta solitária e desgarrada
que me golpeia a alma, feroz
e nenhuma réstea será poupada
Me reparto em postas e sofrimento
alma minha que se esvai, dilacerada
meu peito arfa, num último lamento
tentando embargar - em vão - a derrocada
Deixo-me levar com medonho grito
desfaleço em sombras de negra paz
e resvala-me a carcaça no infinito
E a fera ainda me lambe, voraz
espectro de espasmo, frio e maldito
de amor, que em meu peito jaz
(escrito por Zailda Mendes)

Dilacera o peito, besta insana
afoga a mágoa em verso e prosa
da tua mente jorra, soberana
aos pedaços, essa angústia poderosa
Que arde sempre, indiferente
ao teu urro e ao teu lamento
e assim jogas no papel, eloquente
os restos desse estúpido sentimento
Escancara a chaga que te devora
esquarteja a fera que te condena
escreve tudo e atravessa a aurora
e expõe tua alma tão pequena
Embebe em fel tua ferida
e engole teu acesso de loucura
lança tua história dolorida
em espasmos de dor, torpe criatura
Rasga teu coração dilacerado
escarnece de ti mesmo, fera maldita
abre o peito, escarra teu passado
escancara o ódio que te habita
Arranca da fronte essa adaga funda
que te enegrece a vista quando adormeces
desencava do corpo a alma moribunda
que te abandona à medida que feneces
Teu coração febril, doce mortalha
noite que cai em negror tão forte
mão que te retorce e chacoalha
escravo da vida, guardião da morte
(escrito por Zailda Mendes)

Mãos que afaguei em frenesi
agora me afastam - pudera
ainda sou louca por ti
vil e insensível quimera
Lábios que tanto desejei beijar
agora escarnecem de mim
nunca chegaram a me amar
só mentiram do início ao fim
Eu te dei o sol, daria a lua
queria somente ser tua
nem que só por um momento
Mas te amei, tu me enganavas
tens dezenas de escravas
e o amor é apenas um sentimento
(escrito por Zailda Mendes)

No quarto escuro que meu peito habita
O sangue ferve e a alma acelera
deito-me nos braços da louca desdita
de amar em vão desgraçada quimera.
Um pálido suspiro do meu lábio alenta
a fera insone que meu coração devora
o lábio ferido a lágrima afugenta
pálida besta ferida que sou agora.
Pedaço de mim que se desgarra em agonia
demônio voraz a arrancar-me a calma
me debato em dores até raiar o dia.
Sol que chega enfim, a aplacar-me o trauma
apunhalando a chaga com lâmina fria
amor doente a devorar-me a alma.
(escrito por Zailda Mendes)

Outro dia, mais um dia
sem pão, sem destino
espalhadas no chão, as quimeras
vazias as cortinas,
revirado o baú,
rasgadas todas as sedas
música silenciosa
de almas pagãs
no peito fúnebre
a marcha incestuosa
da lágrima que rompe
e cai, resvalada
na língua murcha
no lábio morto
na face trêmula
alma pálida, lua caída
céu de mortalha,
restos de um amor que se foi
(escrito por Zailda Mendes)

Ave que baila
no negror da noite
que cai em minh’alma
inferno insaciável
de lágrimas mortas
de sonhos rasgados
galopando no tempo
passado, futuro
vagando sem retinas
autômato sem peito
coração sepultado
na vala da morte
negro, rubro
de sangue coalhado
resvala na vida
se apóia na morte
cambaleia e se rasga
num grito sentido
de fel e derrota
que ecoa no nada
pesadelo mortal
(escrito por Zailda Mendes)